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| Os desenhos são do meu caderno do Jardim de Infância. |
Quem me dera, ao menos uma
vez
Ter de volta todo o ouro que
entreguei a quem
Conseguiu me convencer que
era prova de amizade
Se alguém levasse embora até
o que eu não tinha
(...)
Nos deram espelhos e vimos
um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.
(Renato Russo, Legião Urbana,
1986)
Todo 19 de abril quando chega o “Dia
do índio” vem à minha memória os desenhos que a querida Tia Penha me fazia pintar
sobre o tema indígena nos idos de 1972 quando eu tinha 5 para 6 anos no antigo e
mágico jardim da infância da centenária escola Coronel Esmédio.
Atualmente,
o dia do índio vem sendo questionado por razões históricas, culturais e
políticas. A crítica principal não é contra a existência de uma data comemorativa,
mas contra o modo como ela foi concebida e o que ela representa nos dias de
hoje.
O
dia 19 de abril foi instituída em referência ao Congresso Indigenista
Interamericano de 1940, no qual líderes indígenas passaram a reivindicar seus
direitos. No Brasil, a data foi oficializada por Getúlio Vargas em 1943. O Brasil
foi representado por uma delegação chefiada por Edgar Roquette Pinto[1] (1884 – 1954), que à época
ocupava função de relevo como diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo,
o INCE, (órgão vinculado ao Ministério da Educação do ministro varguista
Gustavo Capanema), e por funcionários do SPI (Serviço de Proteção dos Índios) e
por incríveis zero índios!
| Lázaro Cardenas |
Outro
nome relevante deste congresso foi de Moisés Sáenz[4] que teve papel importante
na elaboração de propostas voltadas à educação indígena e à integração social.
Os representantes brasileiros viriam a influenciar, posteriormente, as ideias
debatidas sobre a formulação de políticas estatais de educação indígena e
integração social durante o governo getulista.
O
principal desdobramento institucional do congresso foi a criação do Instituto
Indigenista Interamericano (de sigla III), destinado a coordenar estudos e
políticas voltadas aos povos indígenas no continente[5].
Do
ponto de vista histórico, o congresso consolidou o chamado “indigenismo estatal”,
caracterizado por uma perspectiva que, embora buscasse proteger e integrar os
povos indígenas, frequentemente os tratava como grupos a serem assimilados
pelas sociedades nacionais dominantes. Por isso, apesar de sua importância, o
evento é hoje objeto de análise crítica, especialmente por ter conduzido
majoritariamente por não indígenas e por refletir as limitações conceituais de
sua época.
O 19 de abril foi instituído em referência ao Congresso Indigenista Interamericano, no qual, os poucos líderes indígenas pressentes, passaram a reivindicar direitos. No Brasil, a data foi oficializada por Getúlio Vargas em 1943, sem protagonismo indígena real e dentro de uma lógica estatal que via os povos indígenas como grupos a serem “integrados” à sociedade dominante.

Neste próprio congresso de 1940 não há registro de que alguma liderança específica tenha sugerido o dia 19 de abril como “Dia do Índio”, o que de fato ocorreu é que o dia 19 de abril marca o dia de abertura do evento, sendo a escolha da data como referência comemorativa foi uma decisão coletiva associada ao próprio evento, revelando que a data não nasceu de uma reivindicação direta dos povos indígenas, mas de um processo institucional e diplomático. Os diferentes países da América adotaram datas distintas para celebrar ou reconhecer os povos indígenas, muitas vezes com sentidos políticos e históricos próprios, e nem sempre diretamente ligados ao Congresso Indigenista Interamericano.
A
data foi oficializada em 1994 pela ONU como Dia Internacional dos Povos
Indígenas do Mundo, que diferente do 19 de abril (ligado a um congresso
estatal) tem o 9 de agosto como representação da participação indígena direta,
do debate sobre direitos humanos e do reconhecimento internacional à causa
indígena.
Talvez por isso, quando
chega cada 19 de abril, eu não consiga mais pintar o índio com as mesmas cores
da Tia Penha. Vejo agora o que não via aos 5 anos: um espelho que nos foi dado
para vermos um mundo doente. E, se pudesse, devolveria o ouro ingênuo da minha
infância em troca de um 9 de agosto que celebrasse, não a data de um congresso
de não-índios, mas a voz que sempre deveria ter sido a primeira a ser ouvida.
[1] Roquette Pinto foi uma das principais vozes intelectuais do indigenismo e da antropologia no Brasil, com participação ativa na representação brasileira e na formulação de perspectivas científicas e educacionais voltadas à questão indígena.
[2] Lázaro Cárdenas (1895–1970) foi o principal articulador político do Congresso Indigenista Interamericano de 1940, promovendo uma política indigenista de caráter estatal que buscava integrar os povos indígenas à nação mexicana, ao mesmo tempo em que valorizava certos aspectos culturais.
[3]
Manuel Gamio (1883–1960) foi um dos
pioneiros da antropologia no México e na América Latina, com formação
influenciada por correntes científicas internacionais, especialmente após seus
estudos com Franz Boas; destacou-se por
aplicar o conhecimento antropológico à formulação de políticas públicas
voltadas às populações indígenas, defendendo a integração social acompanhada do
reconhecimento de aspectos culturais, além de atuar em instituições
governamentais e produzir obras relevantes sobre identidade nacional,
arqueologia e desenvolvimento social no contexto pós-revolucionário mexicano.
[4] Moisés Sáenz (1888–1941) foi um destacado educador, reformador e diplomata do México pós-revolucionário, profundamente influenciado pelas ideias pedagógicas de John Dewey, com quem estudou nos Estados Unidos; exerceu o cargo de subsecretário de Educação Pública e teve papel relevante na implementação da educação rural no país, defendendo um modelo que articulava ensino, desenvolvimento comunitário e integração social, especialmente voltado às populações indígenas, além de atuar no serviço diplomático mexicano e produzir reflexões importantes sobre educação, cultura e política no contexto latino-americano do início do século XX.
[5]
O III, Instituto Indigenista Interamericano, que foi criado como desdobramento
do Congresso Indigenista Interamericano de 1940, funcionou formalmente até
2010, quando foi extinto no contexto de uma reestruturação no âmbito do sistema
interamericano dentro da OEA (Organização dos Estados Americanos), sendo suas
funções absorvidas por outras instâncias voltadas aos direitos dos povos
indígenas, com uma abordagem mais alinhada às novas diretrizes internacionais
de direitos humanos, autodeterminação e protagonismo indígena superando os
paradigmas do Indigenismo estatal e da integração e assimilação dos povos
indígenas pela dita “civilização”, reconhecendo aos povos originários os seus
direitos coletivos, o reconhecimento da diversidade e da participação direta
dos povos indígenas sem a tutela estatal.






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